quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O nascimento de Jesus


Maria e José viviam felizes, à espera da criança que ia nascer. 

Alguns meses depois, o imperador romano Augusto, que governava todo o país, fez uma nova lei para recensear (contar) a população: todos tinham de se ir registar na cidade onde tinham nascido, para depois poderem ser cobrados impostos. 

A família de José viera de Belém, por isso eles tinham de voltar para lá. 

Começou a longa viagem com Maria, que já estava quase na altura de dar à luz. 

Carregaram algumas coisas num burro, e partiram, com Maria montada no animal. 

Já era muito tarde quando chegaram a Belém, e Maria estava muito cansada. A cidade estava cheia de gente e de barulho, por causa de todos os que tinham vindo registar-se. 

José tentou encontrar um quarto nas várias estalagens, mas já nenhuma tinha lugar. 

Continuaram a percorrer as ruas à procura de um lugar onde dormir, José puxando o burro pela arreata e Maria montada nele. 

Bateram à porta da última estalagem da terra, mas também aí já não havia lugar. Havia um estábulo perto, que estava limpo e era abrigado. 

José levou-os até lá. Ajudou Maria a descer do burrinho e fez uma cama com palha, que cobriu com uma manta, para todos descansarem. 

À meia noite, o filho de Maria nasceu.
Maria embrulhou-o num pano e José encheu uma manjedoura com palha limpa e fofa e nela deitaram o bebé.
Chamaram-lhe Jesus, tal como dissera o anjo. 

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Morangos




Os morangos bravos ainda não estão maduros. É cedo. Quem vai apanhar morangos em
meados de Junho?
Mas ontem, no pátio, Vilius gabou-se:
— Amanhã vamos aos morangos. Na Grabchto (língua de areia na costa) há muitos! Hoje,
enchemos a barriga. Deveríamos era ter levado um balde.
Na mão segurava um frasco com o fundo mal coberto de bagas rosadas.
Meteu-o debaixo do nariz de Romas e, depois, até deixou escorregar para a mão dele alguns
morangos.
— Prova. Os vermelhos já os comi.
Romas cheirou-os, disse «obrigado» e pediu timidamente:
— Posso ir convosco?
— Depois logo se vê — respondeu Vilius, em tom trocista.
Em vez de comer os morangos, Romas ofereceu-os a Danute, que estava doente há dois dias.
Tinha tosse. A mãe não a deixava andar na rua. E sem ela Romas aborrecia-se. Era uma boa amiga.
Nada que se assemelhasse à Ruta.
Depois de provar os morangos, Danute disse:
— Que doces! Bem gostaria de comer mais!
— Agora não tenho mais, mas amanhã trago-te muitos. Vou apanhá-los com a rapaziada —
prometeu Romas.
Isto foi ontem. Hoje... Romas encontrou Ignas e perguntou-lhe quando iam aos morangos. Este
fugiu à resposta:
— Que morangos?!
— Vilius disse que íeis hoje...
— Vilius lá sabe o que diz. Deixa-me em paz!
— Mas eu prometi a Danute...
— E que tenho eu a ver com isso? Se prometeste, vai!

Ignas voltou-lhe as costas, enfiou as mãos nos bolsos e, bamboleando-se, atravessou o pátio.
Chegado à cancela, virou-se para trás e gritou:
— Ó fedelho, não apanhes os morangos todos.  Deixa alguns para a gente! — e soltou uma
gargalhada.
Romas ficou a pensar no que devia fazer, mas não resolveu nada. «Sou um mentiroso! A garota
está doente e eu falto à minha palavra!... Não tenho vergonha na cara!»
Em casa, depois de recuperar a calma e matar a sede, Romas decidiu-se a agir. Iria sozinho,
pois sabia o caminho. Portanto, bem podia colher e trazer os morangos.
Se bem o disse, melhor o fez. Pegou no cesto e caminhou rapidamente ao longo da praia.
Como os pés se lhe enterravam na areia seca, pôs-se a andar junto à água, onde a areia era mais
dura. E tinha que andar muito...
Romas não sabia ainda que o gabarola do Vilius o enganara. O que os rapazes tinham
encontrado era apenas um punhado de bagas meio maduras. E não na Grabchto, mas perto do velho
aeródromo, no lugar soalheiro...
O Sol que acabava de sair de trás de uma nuvem começou a aquecer. O vento tépido
encrespava ligeiramente a água do mar. Mas Romas caminhava sem se virar. Cansado, entrou até
aos joelhos na água, molhou a cara, tomou fôlego e, sem parar mais, chegou à Grabchto.
Nesta língua de areia encravada no mar crescem  amieiros e bétulas e as suas clareiras estão
sempre cheias de morangos.
Depois de ter atravessado um amial, Romas espantou uma lebre que parecia estar a dormir. O
bicho levantou-se de um salto e desatou a correr em ziguezagues ao longo da orla, deixando ver
apenas a ponta branca do rabo.
— Não tenhas medo, lebre! — gritou-lhe Romas. — Eu só quero apanhar morangos!
A lebre, porém, não se deteve, ou porque  não o ouviu ou porque, de  tão assustada, nada
compreendeu.
Na clareira por trás do amial os morangos  ainda não estavam maduros. Alguns estavam
rosados só do lado do sol. O resto das bagas estavam ainda duras e não tinham sabor. Eram tantas,
mas todas verdes.
O que havia de fazer? Não podia voltar para casa de mãos a abanar! Entrou numa mata de
bétulas e desembocou numa outra clareira. Uma cotovia cantava nas alturas. Romas levantou a
cabeça para a escutar, mas quando olhou em frente o coração estremeceu-lhe de alegria: a clareira
estava toda coberta de morangos maduros! E um forte e delicioso aroma pairava no ar. Romas
colheu uma mão-cheia deles e levou-os à boca. Que doces! É de comer e chorar por mais! «Não,
primeiro, vou encher o cesto para Danute» — disse para si mesmo.
Ajoelhou-se e foi assim, de rastos, que explorou a clareira... Quando encheu o cesto, cobriu os
morangos com folhas para mantê-los frescos. Foi só então que se lembrou de si próprio: comeu até
não ser capaz de levar mais um morango à boca. Estava farto.
Depois de descansar um pouco e lavar de novo a cara e as mãos, que os morangos tinham
tornado pegajosas, dirigiu-se para casa.
Chegou a casa já o Sol ia baixo. A mãe estava inquieta e zangada. Para tranquilizá-la, o avô
disse:
— Não te disse que nada aconteceria ao nosso Romas? Ele sabe o que faz. E quem sabe o que
faz nunca se perde! Então, o que trazes aí? — Morangos.
— Não pode ser! É ainda cedo.
— Sim, mas os da Grabchto já estão maduros!
— Deixa ver. Que lindos!
— São para Danute!
— Ora vejam! Prometeste-os a Danute? Vai lá alegrar a tua amiga.
— Mas não demores muito! — acrescentou a mãe.
— Vou num pé e venho noutro! — E virando-se para a mãe, disse: — Tenho tanta fome!
Danute, abraçada ao cesto, disse:
— Assim que comer isto, fico boa!
Entretanto, Ignas espreitou pela janela.
— É verdade que o Romas...? — Não acabou a frase, pois viu Danute tirando morangos do
cesto.
No dia seguinte, Romas procurou em vão os rapazes mais velhos. Queria convidá-los para irem
aos morangos na Grabchto, mas eles haviam desaparecido ao despontar do Sol, ninguém sabia onde
se tinham metido. Voltaram à tarde. Estavam cansados, bisonhos, furiosos. Vilius ordenou a Ruta:
— Chama o Romas!
Mal Romas apareceu no pátio, Vilius atacou-o:
— Porque mentiste? Não há morangos maduros na Grabchto.
— Disse a verdade — ofendeu-se Romas. — Talvez não tivésseis procurado no sítio certo.
— Percorremos a Grabchto de ponta a ponta...
— Mas eu encontrei!
Vilius piscou o olho e resmungou:
— Não sei onde os encontraste, mas o certo é  que não foi na Grabchto! Não me esquecerei
desta tua mentira. Percebeste?
Teria mesmo mentido? Simplesmente encontrara uma clareira batida pelo sol…

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A prenda do cisne



Anton era um lavrador que vivia com a mulher, Rubina, e com os seus sete filhos na orla da floresta. Era um trabalhador incansável e viviam felizes. Mas, uma certa Primavera, as chuvas não caíram e o trigo morreu nos campos.

   Quando veio o Inverno, as provisões da família tornaram-se cada vez mais escassas. Em breve, os ombros de Anton estavam curvados de preocupação e a cara saudável de Rubina definhara. Até os filhos deixaram de cantar, rir e dançar, porque estavam cheios de fome. 

   Todos os dias, o homem partia em busca de caça, mas regressava sempre sem ter disparado um só tiro. E, todos os dias, a mulher adicionava água à sopa de cebola, até deixar de haver sopa alguma. Quando Anton viu a família a chorar de fome, também lhe apeteceu chorar. Mas pegou na arma e partiu para a floresta, embora fosse noite escura. 

   Tinha de encontrar alguma coisa para comer, ave ou coelho. Mas nos ramos negros não havia pássaros e não se vislumbravam coelhos no bosque gelado. Só se viam as pegadas de Anton. A dado momento chegou a uma colina. Sabia que não lhe restavam muitas forças: os pés estavam enregelados e mal conseguia respirar. Parou para descansar no cimo, perscrutando a neve em busca de rastos de animais.

   Desesperado, preparava-se para ir embora, quando viu um lago que ainda não tinha gelado completamente. No centro do lago, nadava um cisne de tal beleza que o homem não conseguiu desviar os olhos dele. As suas penas brancas e direitas brilhavam na água escura e, à medida que Anton olhava, o cisne parecia crescer.

   De repente, o homem começou a salivar, com a ideia da carne assada e suculenta do animal. Já via as caras dos filhos a brilhar de novo quando se sentassem à mesa para comer. Ergueu a arma e apontou o cano. Pôs o dedo no gatilho. O cisne parecia estar a olhá-lo, à espera de ouvir o tiro que o mataria. Mas Anton baixou a arma. O cisne era a criatura mais maravilhosa que alguma vez vira! Enquanto o observava, viu que o animal colocava as asas em leque, como se quisesse abraçar a noite. Anton fechou os olhos e pensou na família. E de novo ergueu a arma.

   Parecia que tinham passado horas. As penas do peito do cisne mexiam a cada batida do seu coração e o homem sentia o seu próprio coração bater. Levantou os pés cansados e molhados, deu algumas passadas e caiu de joelhos.

   — Não consigo — confessou.

   — E porque não? — perguntou uma voz, suave como penas a flutuarem na brisa.

   — Porque não posso matar a beleza. Se eu matar este cisne, a minha família tem de que comer durante uma ou duas refeições. Mas depois teremos fome de novo e a sua morte terá sido em vão.

   Anton estava demasiado cansado para se surpreender por estar a falar com o cisne ou com o vento. Estava também demasiado cansado para regressar a casa. Deixou cair a cabeça com pena da família. Com um grito, o cisne levantou as asas, ergueu-se do lago e voou em torno do homem. Começou a cair água das penas das asas. Quando a água tocou a neve, transformou-se em cristais que brilhavam ao luar. Anton pegou num e viu que era mais duro do que o gelo, mas que não se derretia no calor da sua mão.

   — Um diamante! — exclamou.

   Pegou rapidamente em todos os diamantes que jaziam num círculo em seu redor. Encheu os bolsos e dirigiu-se a uma aldeia vizinha.

   Já não se sentia cansado. Já não tinha frio. Acordou o estalajadeiro com um grito.

   — Preciso de comida.

   — As tuas colheitas estragaram-se — respondeu o estalajadeiro. — Toda a gente sabe que não tens dinheiro. 

   — Tenho um diamante. 

   — E onde arranjaria um pobretanas como tu um diamante? — escarneceu o homem.

   — Deixa-me entrar que já te explico.

   O estalajadeiro serviu-lhe faisão frio e tortas doces enquanto Anton lhe contava o que acontecera. A mulher do estalajadeiro arranjou-lhe um trenó com galinhas assadas, queijos, cebolas e nabos. Depois despediram-se dele e foram à procura do cisne mágico.

   Rubina abriu a porta ao marido.

   — Encontraste alguma caça? O Mischa desmaiou.

   — Não, não encontrei, mas trouxe isto. E mostrou-lhe o conteúdo do trenó.

   — Como conseguiste? — perguntou Rubina.

   Em jeito de resposta, Anton espalhou os diamantes na mesa.

   — Então agora deste em ladrão! — exclamou a mulher.

   — Não, não roubei.

   E contou-lhe o que acontecera com o cisne e como este lhe tinha dado os diamantes.

   Embora fosse de noite, Anton e Rubina acordaram as crianças e sentaram-se todos à mesa a comer devagar, a saborear o gosto da comida e a sensação maravilhosa de um estômago cheio. Os olhos escuros de Rubina brilhavam enquanto enchia as tigelas dos filhos. Anton recobrou as forças e os filhos suspiraram de contentamento quando regressaram às camas. Anton, Rubina e os filhos prosperaram, porque souberam utilizar os diamantes com sensatez. E muitos foram os que partiram em busca do cisne mágico. Mas nunca mais ninguém o encontrou…

   Às vezes, quando Anton estava sozinho na floresta, vinha-lhe à mente a imagem do cisne: via de novo o brilho das suas penas, o tom coral do seu bico e o porte magnífico das suas asas enquanto deslizava em silêncio pelo céu.

A noz mágica



Sara e Flávio são duas crianças que moram em apartamentos contíguos. Fazem quase tudo juntas: brincar e cantar, rir e chorar, inventar histórias e sonhar. Um dia por semana vão à feira. Mas não podem comprar nada porque não têm dinheiro.

   Hoje, encontraram lá uma velhinha, sentada num pequeno banco, com uma cesta de nozes em cima dos joelhos. Nozes grandes e boas! Flávio pensa para consigo: "Se ela me desse uma noz, só uma…".

   Nesse momento, a velhinha tira uma noz da cesta e oferece-a a Flávio.

   — Muito obrigado! — diz o menino, admirado.

   Ao chegarem a casa, Flávio descasca a noz. De dentro dela sai, a voar, um passarinho.

   — Olha, esta noz é mágica! — exclama Flávio.

   As crianças ficam espantadas. O passarinho vai pousar no ombro de Sara.

   — Lembrei-me de uma coisa! — diz Flávio. — Vamos oferecê-lo à minha avó. Assim, não irá sentir-se tão só.

   É então que, perante o olhar maravilhado das crianças, o passarinho começa a crescer.

   A avó recebe com alegria o inesperado presente. A ave esvoaça, contente, e deixa-se alimentar.

   É dia de feira, novamente. Sara e Flávio procuram a velhinha das nozes. Lá está ela, no seu banquinho, com a cesta das nozes em cima dos joelhos. Também Sara deseja ardentemente uma noz mágica. Sem dizer palavra, a velhinha oferece-lhe uma. Cheia de alegria, Sara recebe a noz e agradece.

   Já em casa, descasca a noz. E dela sai um pequeno violino.

   — Olha, um violino mágico! — exclama Sara.

   As crianças ficam espantadas. Na rua há um músico ambulante, que toca num violino já gasto.

   — Lembrei-me de uma coisa! — diz Sara. — O músico poderá ficar com este violino mágico.

   Nesse momento, o violino começa a crescer, perante o olhar maravilhado das crianças.

   Sara vai levá-lo ao músico ambulante, que fica feliz com a oferta inesperada. E logo tira do violino sons maravilhosos, que muitas pessoas param a ouvir.

   É outra vez dia de feira. Sara e Flávio procuram de novo a velhinha. Ambos querem uma noz mágica. Lá está ela sentada. Reconhece as crianças, faz-lhes sinal e diz:

   — Hoje é a última vez que venho à feira.

   E depõe uma noz na mão de cada um.

   — Espero que saibam utilizar bem as minhas nozes — acrescenta, em jeito de despedida.

   Sara e Flávio agradecem-lhe e regressam a casa. Como Flávio não quer perder a sua última noz mágica, semeia-a, na esperança de que, em breve, surja uma pequena nogueira. Pensa: "Quando for grande, a árvore irá dar nozes mágicas. Então, eu vendo-as e fico rico".

   Passam-se alguns anos. Sara mudou de casa e Flávio perdeu-a de vista. A nogueira cresceu. Agora, todas as semanas, Flávio vende as suas nozes na praça. Só que elas não contêm presentes mágicos. Muitas até estão chochas e ele cada vez tem mais dificuldade em vendê-las.

   Dentro de dias será Natal. Sentado na praça, Flávio esfrega as mãos com frio. Enquanto, com tristeza, recorda as nozes mágicas da sua infância, abeira-se dele uma mulher, que pára a olhar para as nozes.

   — Estas nozes fazem-me lembrar tempos passados — diz.

   Mete a mão no bolso do impermeável e tira uma noz, que dá a Flávio:

   — É para ti. Guardei-a durante anos.

   — Oh! Então tu és a Sara! — exclama Flávio.

   A jovem sorri. Flávio abre a noz com todo o cuidado. Ambos se espantam por sair dela uma pequenina árvore que, em seguida, começa a crescer nas mãos de Flávio. Mesmo ali à beira há um vaso com terra, e ambos plantam nele a árvore, que continua sempre a crescer diante dos seus olhos. Então, Flávio aponta para as suas nozes e confessa:

   — Nunca mais voltei a ter nozes mágicas!

   — As nozes mágicas não abundam — sussurra Sara. — Não se podem comprar nem vender. É de graça que se recebem e é de graça que se dão.

   — Agora compreendo — diz Flávio.

   Olham ambos, novamente, para a árvore e ficam surpreendidos, pois ela cobriu-se de flores, em pleno Inverno.

Assim não jogo



Hoje vou falar de futebol.

   Era uma vez um jogador que se chamava Medo. Um grande jogador!

   — Vamos jogar contra o Medo — diziam, antes do desafio, os adversários, cheios de medo.

   Mas, um dia, lesionou-se.

   — Estamos muito desfalcados — lamentavam-se os companheiros de equipa. — Sem o Medo não é a mesma coisa.

   Foram buscar o suplente. Por acaso, o rapaz até se chamava Nervos. Era o Zé Nervos, não muito jeitoso a dominar a bola, mas com uma potência no remate de virar os guarda-redes do avesso.

   Já o primo dele, o Chico Nervos, que também jogava, mas a meio-campo, não havia quem o suplantasse como armador de jogo.

   — Rapazes, hoje a táctica é toda por conta dos Nervos — anunciava o treinador, nos balneários. — Com os Nervos ao ataque, temos a vitória garantida.

   E tiveram.

   Naquele jogo e no outro e nos outros que se seguiram o êxito foi estrondoso. Os adversários levavam abadas de chocar.

   — Vocês não têm mais irmãos ou primos com queda para o futebol? — perguntava aos dois Nervos o treinador. — Se tiverem, eu contrato-os. Com os Nervos todos do nosso lado, bem controlados por mim, seremos imbatíveis.

   Por sinal que eles não tinham mais parentes virados para o desporto. Eram os únicos Nervos futebolistas da família. Mas chegavam.

   — Nervos! Nervos! Nervos! — gritavam os espectadores, nas bancadas.

   Até parecia que a força dos Nervos se comunicava aos restantes jogadores.

   Tanto se destacavam os primos que os jornais quase se esqueceram do nome dos outros futebolistas, do treinador e do próprio clube, para apenas designarem a equipa com títulos deste género: avalanche de Nervos, Nervos a mais, ataque de Nervos, com um entusiasmo e um exagero que – brr! – até enervavam.

   Entretanto, o Medo, aquele jogador que se tinha lesionado no princípio da história, restabeleceu-se. Estava, de novo, pronto para jogar.

   O treinador fez umas substituições, uns acertos e, sem dispensar os primos Nervos, mandou vir o Medo.

   — Por este andar, com uma equipa deste nível, vamos ganhar a Taça das Taças das Taças das Taças — dizia o treinador, a esfregar as mãos e a rir-se.

   Riso de pouca dura. O primeiro jogo com a nova formação foi um desastre. O segundo jogo, uma calamidade. Do terceiro jogo já não posso falar, porque não assisti. Sem, ao menos, um jantar de despedida, os dirigentes do clube puseram-me na rua.

   Sim, era eu o treinador da equipa, esqueci-me de avisar no princípio.

   Depois deste desaire, nunca mais voltei a um estádio. Mudei de vida. 

   Empreguei-me a escrever histórias...

   Mas uma coisa aprendi da minha passagem pelo desporto: com Nervos e Medo juntos, nunca se consegue ganhar. 

A pequena tigela de arroz



Esta é a história de um avarento, que vivia numa grande mansão, no cimo de uma erma colina. Certo dia, uma coisa aconteceu, que mudou a sua vida para sempre.

   A casa do homem era muito velha e cheia de correntes de ar. O avarento vivia sozinho, com excepção de alguns criados e de um cão, ao qual nem sequer dera um nome. O velho dormia e comia numa das muitas torres da mansão, e passava os dias a contar o seu ouro. O ouro era aquilo de que mais gostava no mundo, e nunca o partilhava ou gastava.

   Todos o conheciam como o homem mais avarento que alguma vez existira. Nunca convidava ninguém para casa e nunca dera um presente a quem quer que fosse. Na realidade, só saía uma vez por ano, porque tinha medo de gastar dinheiro. E, quando saía, viajava numa carruagem imponente, acompanhado pelo cão e por um criado, para cobrar os impostos dos camponeses pobres que cultivavam as terras dele.

   Numa dessas vezes, quando regressava a casa, ao anoitecer, vindo de um bem sucedido dia de cobrança de impostos, e firmemente agarrado ao saco cheio de ouro, a carruagem foi detida por assaltantes. O avarento bem gritou por socorro, mas em vão. Os ladrões tiraram-lhe as roupas, obrigaram-no a vestir trapos, e levaram-no, com o cão, para bem longe no campo, onde o deixaram sem comida nem bebida.

   O homem ficou deveras abalado e pôs-se a gritar com o cão, a quem nunca pusera nome, por o animal não ter atacado os assaltantes. Estava agora a escurecer e encontravam-se ambos completamente perdidos. Desesperado, o homem rastejou para debaixo de uma sebe, onde ficou a chorar e a pensar no ouro roubado até adormecer. Quanto ao cãozito, enrolou-se perto dele.

   No dia seguinte, o homem acordou com frio, dores e fome, e foi com o cão em busca de uma aldeia. Andaram e andaram até que, por fim, chegaram a uma estrada. Não se via vivalma, e o avarento estava cheio de fome e de pena de si próprio. De repente, o cão ladrou e desatou a correr.

   O homem seguiu-o e deparou com uma pequena cabana isolada, rodeada de rosas silvestres. Quando viu fumo branco a sair da chaminé, sentiu-se encorajado e bateu à porta. De repente, contudo, hesitou, ao lembrar-se de como sempre tinha mandado embora os que lhe batiam à porta para pedir ajuda. Quem quereria ajudar um andrajoso como ele? Estava quase a dar meia volta quando ouviu uma voz prazenteira perguntar:

   — Quem é?

   Aliviado, o avarento respondeu, humilde:

   — Desculpe incomodá-lo, mas estou perdido e tenho fome. Será que me poderia dar um pouco de comida, para mim e para o meu cão? E um lugar quentinho para dormirmos?

   — Claro que posso — respondeu a voz amistosa. — Entrem.

   Entraram na cabana, que encontraram bastante despida. Na sala só havia algumas peças de mobília e as janelas não tinham cortinas. Mas a lareira estava acesa, e um velho de ar bondoso estava sentado à mesa. Junto dele, um cão castanho abanava a cauda e sorria. O homem levantou-se e riu com gosto, dizendo ao cão: 

   — É uma pobre alma perdida, Archie, e trouxe-te um novo amigo!

   Depois, virando-se para o avarento, convidou:

   — Entre e sente-se. Seja bem-vindo ao meu festim! Hoje vamos ter um banquete de arroz delicioso! — brincou.

   Foi a uma prateleira buscar duas tigelas pequenas e disse:

   — Vamos ter de partilhar este arroz, porque é tudo o que tenho. E o seu cão vai partilhar a comida do Archie.

   O velho deitou algum arroz na tigela grande de Archie para os dois cães e dividiu o que sobrou entre ele e o avarento, que estava pasmado com tanta generosidade. Como podia aquele homem ser tão feliz apesar de ser tão pobre? O avarento pensou no seu ouro, nos seus criados e na sua mansão. Apesar de ter tudo isto, nunca se tinha sentido tão feliz como este homem que tinha tão pouco. E sentiu culpa e vergonha pela sua conduta avarenta ao longo de todos aqueles anos. 

   A fome trouxe-o de volta para o presente, e comeu o arroz com sofreguidão, pensando que nunca provara nada tão delicioso. Em breve se sentiu contagiado pela afabilidade do velho e deu por si a contar-lhe como tinha sido roubado. O velho ouviu o relato com atenção e disse-lhe, depois:

   — A sua história entristece-me. O senhor tem tanto e, no entanto, a sua vida é tão vazia e solitária.

   Ofereceu ao avarento o seu lugar em frente da lareira, deu-lhe as boas noites, e deitou-se no chão para dormir.

   O avarento ficou tão comovido com a bondade do velho, e tão grato, que, enquanto o sono não chegava e ele pensava no que tinha acontecido, o gelo do seu coração começou a derreter. As lágrimas correram-lhe pela face ao dar-se conta de quão horrível a sua vida era na realidade. E, pela primeira vez, fez uma festa ao cão a que nunca dera um nome. Tomou, também, a resolução de retribuir a generosidade do homem.

   Na manhã seguinte, quando acordou, convidou o velho e o cão a virem viver com ele na mansão, oferta que ambos logo aceitaram, com alegria. E, sem demora, partiram para casa.

   A partir desse dia, o avarento mudou o seu comportamento. Ele e o velho tornaram-se amigos e viveram felizes com Archie e Merry, nome que deu ao seu cão, que cresceu a olhos vistos com o carinho do dono. Nunca mais ninguém foi mandado embora da mansão de mãos vazias e, em vez de cobrar impostos, o avarento usou o ouro para melhorar as condições de vida da população local. Duas vezes por ano, convidava os vizinhos e as crianças para festas que eram tão divertidas que se tornaram no tópico de conversa de todos. 

   A ambição e o egoísmo estragam tudo e todos.

   Uma pessoa sensata sabe que o caminho para a verdadeira felicidade passa pela partilha do que tem, por pouco que seja.

A cadeira que quis ser trono



Esta cadeira não tinha os pés bem assentes no chão. Era uma cadeira um pouco desequilibrada, como vão apreciar.

   Nada a distinguia de milhares de outras cadeiras modestas, toscamente pintadas, para enganar o caruncho. Tinha quatro pernas, assento de bom tamanho e umas costas muito direitas, que a faziam parecer senhora espartilhada e altiva. Esquecida a um canto da casa, infeliz com o seu destino de cadeira vulgar, suspirava todo o santo dia:

   — Por mais que queira, não me conformo. Puseram-me para aqui, nesta casa insignificante, quando podia estar em lugar de destaque, num salão de luxo. Triste sina.

   Os bancos, muito amigos da galhofa, riam-se destas falas. Um deles, um velho mocho de sapateiro, dizia-lhe assim:

   — Naturalmente, queria ser trono, não?

   — Para trono faltam-lhe os braços — notava um banco de cozinha. 

   — E falta-lhe a madeira... — acrescentava um outro. — Onde é que já se viu um trono de pinho?

   Os bancos voltavam a rir-se, de frente para a cadeira, que nem as costas lhes podia voltar.

   — Deixem a pequena em paz — aconselhava a mesa que era muito boazinha. — Tem as suas fraquezas, que querem? Se lhe pusessem um calço por baixo de um dos pés, talvez lhe passasse o desequilíbrio. O mal foi terem-na feito com madeira ainda verde.

   — A senhora mesa está sempre pronta a desculpá-la — dizia o mocho.

   — É que eu também tive ambições, quando era nova. Quis ser mesa de banquetes, imaginem! Só me via vestida com uma grande toalha de linho e rendas, enfeitada de castiçais de prata, coberta de travessas finas e talheres reluzentes... Sonhei com este banquete mil vezes, mas nunca me deram nenhum.

   Os bancos ficaram calados. Falando-se em coisas sérias, os bancos não sabiam o que dizer.

   — Mas não me sinto infeliz — continuou a mesa. — Aqui os talheres são foscos e os pratos, rachados. Quase nunca me cobrem com toalha, mas as mãos das pessoas passam sobre mim e fazem-me festas. Os cotovelos apoiam-se ao meu tampo. Os dedos batem-me ao de leve, enquanto esperam pela terrina da sopa e pelo pão, acabadinho de sair do forno. Sei que as pessoas matam a fome e a sede à minha volta, sei que gostam de mim e não me dispensam. Vale a pena ser mesa.

   "Aquela contenta-se com pouco", pensava a cadeira, empertigando-se ainda mais nas suas quatro pernas fraquinhas.

   Um dia, passou por ali um vistoso cortejo de cavaleiros. Era o rei que ia à caça, em companhia dos seus fidalgos. O séquito atravessou a galope a única rua da aldeia. As mulheres, os homens e as crianças, que nunca tinham visto cavalos tão bonitos nem cavaleiros tão bem vestidos, vieram às janelas e disseram adeus com lenços.

   Na casa desta história, não se falou noutra coisa, durante o resto do dia. A cadeirinha, essa, só suspirava de si para si: "Ah, se o rei me levasse...!"

   Voltaram a passar pela aldeia, ao fim da tarde, os cavaleiros. Traziam caça grossa: javalis, raposas e veados, atravessados nos cavalos. E vinham cansados os cavaleiros. De todos, o mais amolentado era o rei. Gordo, muito gordo, o rei estava farto de correrias, caçadas e solavancos. O que queria era repouso.

   Das portas abertas das casas vinha um cheirinho apetitoso a pão desenfornado. Sua Majestade tentou-se pelo cheiro e, fazendo um gesto, mandou parar a comitiva. O estribeiro-mor ajudou-o a descer do cavalo, o que ainda foi difícil, e amparou-o até à soleira de uma porta, precisamente a porta da casa onde se passa esta história.

   O casal de velhinhos que lá vivia assarapantou-se com a visita. Servir-lhe um pão saído do forno, barrado com manteiga fresquinha, não exigia grandes conhecimentos de etiqueta, mas onde sentar tão ilustre visitante?

   — Traz a cadeira, mulher. Depressa! — gritou o camponês.

   Era a única cadeira da casa, a tal de que temos falado. Finalmente, ia provar aos bancos trocistas que uma cadeira, mesmo de pinho, sabe servir com fidalguia os grandes da terra e amparar-lhes o peso do poder. Eles que a vissem, frágil cadeirinha, fazer as vezes de um trono, pois então!

   Podíamos acabar aqui a história, que acabávamos bem. Mas há contratempos...

   Os camponeses chegaram a cadeira a Sua Majestade, que se refastelou. Fosse do inesperado peso ou da emoção, a pobrezinha gemeu... gemeu... e, não se segurando nas pernas, desconjuntou-se toda, com o rei em cima.

   Catrapumba! Cai o rei no meio do chão, alarma-se o séquito, assustam-se os camponeses e, dentro de casa, quase se desmancham a rir os bancos e os banquinhos.

   Amolgado e muito dorido, o rei lá se levantou:

   — Coitados, a culpa não foi deles — disse o rei, referindo-se aos velhinhos. — Dêem-lhes dinheiro para uma cadeira nova. Ai!

   Foi-se embora o séquito real. A cadeira, triste monte de tábuas carunchosas, ficou onde se tinha partido. Lenha para o forno, não tarda...

O Alfaiate de Bagdad

O Alfaiate de Bagdad

Lá para as terras de Bagdad, que um poderoso sultão governava, havia um alfaiate que tinha um filho tão ou mais hábil do que o pai nas artes de alfaiataria. 
A bem dizer, o rapaz não era filho de alfaiate. Encontrara-o ele, bebé ainda, dentro de um cestinho, à sua porta, abandonado sabe-se lá por quem. Mas tanto fazia. 
Recolhido e amimado, o menino crescera na casa acolhedora do velho alfaiate, sem nunca saber a sua verdadeira origem. 
Quando o pai adoptivo morreu, o jovem prosseguiu o ofício que aprendera do seu protector. Ganhou fama profissional, tanta que de longes terras vinham encomendar-lhe fatos e túnicas dos mais finos tecidos. 
Um dia, um escravo de sabre em punho veio buscá-lo para que fosse com ele a determinado sítio, para receber uma encomenda. 
- Leva a tua melhor tesoura, porque a freguesia é exigente - recomendou-lhe o escravo. 
Mas, para que o alfaiate não ficasse a saber o caminho nem localizasse o cliente, vendou-lhe os olhos com um lenço. 
Levou-o assim ao harém privado do sultão, onde, depois de tirar-lhe a venda, o apresentou às favoritas do sultão. O rapaz ficou de olhos esbugalhados, com tanta beleza à sua volta. Não sabia onde estava, mas desconfiou. 
As favoritas, de rosto velado, encomendaram-lhe um nunca mais acabar de vestidos. Estava ele a tirar as medidas, um bocado atordoado com a aventura, quando se abriu a porta. Era sultão. 
- Que está aqui a fazer este desgraçado? - perguntou o sultão, furioso. 
Não houve explicações que o satisfizessem. Nenhum homem senão ele podia frequentar aquelas salas do palácio. Quem perdesse a cabeça e arriscasse, perdia mesmo a cabeça, de verdade. 
- Mas antes de cortarem a cabeça ao intruso, chicoteiem-no com cem vergastadas - ordenou o sultão. 
Assim se dispunham a fazer quando o rapaz, tentando salvar a vida, arrancou o sabre das mãos do escravo que o trouxera e fez frente aos guardas. Tão hábil era ele a manejar a tesoura como o sabre. Um a um, derrubou os opositores. Chegando à beira do sultão, que estava desarmado, dispunha-se a trespassá-lo. Outra solução não tinha. Ou matava ou era morto. 
Nisto, uma das favoritas reparou, por um dos rasgões da camisa, estraçalhada na luta, que o rapaz tinha nas costas um singular sinal em forma de ananás. 
- É o sinal da realeza - gritou ela. - Não mates o sultão que ele é teu pai. 
Mas já o jovem alfaiate tinha acertado um profundo golpe no peito do sultão. 
Suspendeu-se à beira de vibrar o segundo. 
Foi-se ver e era verdade. Um adivinho predissera, no nascimento do príncipe, que aquele menino iria pôr em perigo a vida do pai. Por isso é que se tinham desembaraçado dele, em criança. 
O velho sultão, a esvair-se em sangue, foi socorrido pelos médicos da corte. Salvaram-no. Safou-se, mas ficou muito fracalhote, daí em diante. 
O alfaiate, agora príncipe, ocupou o seu lugar à frente do reino. Passou a governar com mais senso e justiça do que o pai. Nos intervalos da governação, talhava vestidos. No harém, as favoritas cosiam à linha. Aquilo já não parecia um palácio, mas uma fábrica de confecções. Chegaram a trabalhar para fora.