segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Morangos




Os morangos bravos ainda não estão maduros. É cedo. Quem vai apanhar morangos em
meados de Junho?
Mas ontem, no pátio, Vilius gabou-se:
— Amanhã vamos aos morangos. Na Grabchto (língua de areia na costa) há muitos! Hoje,
enchemos a barriga. Deveríamos era ter levado um balde.
Na mão segurava um frasco com o fundo mal coberto de bagas rosadas.
Meteu-o debaixo do nariz de Romas e, depois, até deixou escorregar para a mão dele alguns
morangos.
— Prova. Os vermelhos já os comi.
Romas cheirou-os, disse «obrigado» e pediu timidamente:
— Posso ir convosco?
— Depois logo se vê — respondeu Vilius, em tom trocista.
Em vez de comer os morangos, Romas ofereceu-os a Danute, que estava doente há dois dias.
Tinha tosse. A mãe não a deixava andar na rua. E sem ela Romas aborrecia-se. Era uma boa amiga.
Nada que se assemelhasse à Ruta.
Depois de provar os morangos, Danute disse:
— Que doces! Bem gostaria de comer mais!
— Agora não tenho mais, mas amanhã trago-te muitos. Vou apanhá-los com a rapaziada —
prometeu Romas.
Isto foi ontem. Hoje... Romas encontrou Ignas e perguntou-lhe quando iam aos morangos. Este
fugiu à resposta:
— Que morangos?!
— Vilius disse que íeis hoje...
— Vilius lá sabe o que diz. Deixa-me em paz!
— Mas eu prometi a Danute...
— E que tenho eu a ver com isso? Se prometeste, vai!

Ignas voltou-lhe as costas, enfiou as mãos nos bolsos e, bamboleando-se, atravessou o pátio.
Chegado à cancela, virou-se para trás e gritou:
— Ó fedelho, não apanhes os morangos todos.  Deixa alguns para a gente! — e soltou uma
gargalhada.
Romas ficou a pensar no que devia fazer, mas não resolveu nada. «Sou um mentiroso! A garota
está doente e eu falto à minha palavra!... Não tenho vergonha na cara!»
Em casa, depois de recuperar a calma e matar a sede, Romas decidiu-se a agir. Iria sozinho,
pois sabia o caminho. Portanto, bem podia colher e trazer os morangos.
Se bem o disse, melhor o fez. Pegou no cesto e caminhou rapidamente ao longo da praia.
Como os pés se lhe enterravam na areia seca, pôs-se a andar junto à água, onde a areia era mais
dura. E tinha que andar muito...
Romas não sabia ainda que o gabarola do Vilius o enganara. O que os rapazes tinham
encontrado era apenas um punhado de bagas meio maduras. E não na Grabchto, mas perto do velho
aeródromo, no lugar soalheiro...
O Sol que acabava de sair de trás de uma nuvem começou a aquecer. O vento tépido
encrespava ligeiramente a água do mar. Mas Romas caminhava sem se virar. Cansado, entrou até
aos joelhos na água, molhou a cara, tomou fôlego e, sem parar mais, chegou à Grabchto.
Nesta língua de areia encravada no mar crescem  amieiros e bétulas e as suas clareiras estão
sempre cheias de morangos.
Depois de ter atravessado um amial, Romas espantou uma lebre que parecia estar a dormir. O
bicho levantou-se de um salto e desatou a correr em ziguezagues ao longo da orla, deixando ver
apenas a ponta branca do rabo.
— Não tenhas medo, lebre! — gritou-lhe Romas. — Eu só quero apanhar morangos!
A lebre, porém, não se deteve, ou porque  não o ouviu ou porque, de  tão assustada, nada
compreendeu.
Na clareira por trás do amial os morangos  ainda não estavam maduros. Alguns estavam
rosados só do lado do sol. O resto das bagas estavam ainda duras e não tinham sabor. Eram tantas,
mas todas verdes.
O que havia de fazer? Não podia voltar para casa de mãos a abanar! Entrou numa mata de
bétulas e desembocou numa outra clareira. Uma cotovia cantava nas alturas. Romas levantou a
cabeça para a escutar, mas quando olhou em frente o coração estremeceu-lhe de alegria: a clareira
estava toda coberta de morangos maduros! E um forte e delicioso aroma pairava no ar. Romas
colheu uma mão-cheia deles e levou-os à boca. Que doces! É de comer e chorar por mais! «Não,
primeiro, vou encher o cesto para Danute» — disse para si mesmo.
Ajoelhou-se e foi assim, de rastos, que explorou a clareira... Quando encheu o cesto, cobriu os
morangos com folhas para mantê-los frescos. Foi só então que se lembrou de si próprio: comeu até
não ser capaz de levar mais um morango à boca. Estava farto.
Depois de descansar um pouco e lavar de novo a cara e as mãos, que os morangos tinham
tornado pegajosas, dirigiu-se para casa.
Chegou a casa já o Sol ia baixo. A mãe estava inquieta e zangada. Para tranquilizá-la, o avô
disse:
— Não te disse que nada aconteceria ao nosso Romas? Ele sabe o que faz. E quem sabe o que
faz nunca se perde! Então, o que trazes aí? — Morangos.
— Não pode ser! É ainda cedo.
— Sim, mas os da Grabchto já estão maduros!
— Deixa ver. Que lindos!
— São para Danute!
— Ora vejam! Prometeste-os a Danute? Vai lá alegrar a tua amiga.
— Mas não demores muito! — acrescentou a mãe.
— Vou num pé e venho noutro! — E virando-se para a mãe, disse: — Tenho tanta fome!
Danute, abraçada ao cesto, disse:
— Assim que comer isto, fico boa!
Entretanto, Ignas espreitou pela janela.
— É verdade que o Romas...? — Não acabou a frase, pois viu Danute tirando morangos do
cesto.
No dia seguinte, Romas procurou em vão os rapazes mais velhos. Queria convidá-los para irem
aos morangos na Grabchto, mas eles haviam desaparecido ao despontar do Sol, ninguém sabia onde
se tinham metido. Voltaram à tarde. Estavam cansados, bisonhos, furiosos. Vilius ordenou a Ruta:
— Chama o Romas!
Mal Romas apareceu no pátio, Vilius atacou-o:
— Porque mentiste? Não há morangos maduros na Grabchto.
— Disse a verdade — ofendeu-se Romas. — Talvez não tivésseis procurado no sítio certo.
— Percorremos a Grabchto de ponta a ponta...
— Mas eu encontrei!
Vilius piscou o olho e resmungou:
— Não sei onde os encontraste, mas o certo é  que não foi na Grabchto! Não me esquecerei
desta tua mentira. Percebeste?
Teria mesmo mentido? Simplesmente encontrara uma clareira batida pelo sol…

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